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Primeiras e terceiras intenções

Posted by Gustavo Pitwak on 10:44
Assistindo um pouco de tudo na televisão, intercalando canais sem nenhuma opção, lendo as reportagens criminais, políticas e demais impressões feitas para um resumo semanal, no final me dá um calafrio, chego a perder a noção e o resto de ideologia, que me resta.
Tudo bem que estamos com certa “urticária social”, fiquei pensativo outro dia, um senhor de idade me abordou de maneira apavorada, dizendo precisar de ajuda, pedindo carona para levá-lo até a zona rural, em razão de seu filho, um dependente químico, tê-lo esquecido na cidade.
Por mais explicito que o velho senhor tenha sido, a minha ajuda não passou de moedas, fiquei confuso, entre o remorso e o alivio, de não ter acreditado, e outra de ter se livrado talvez de um problema maior. Em outro dia, fiquei aflito em ver uma senhora carregando várias sacolas de mercado, juro pensei em ajudar, mas algo me dizia que ela recusaria, ela desconfiaria da minha bondade, ainda mais em São Paulo, onde se fica temeroso, vivendo em um berço criminal.
Muitos dos meus amigos já foram assaltados de maneiras inesperadas, mendigos, senhoras, meninas, meninos, carteiros, até mesmo extorsão de policiais, agente anda desconfiando do próximo, a gente fica mesmo com flores e facas na mão.
Dizem para “amar o próximo como a si mesmo”, talvez esse seja o problema, o homem moderno não se entende, não se ama, tão mais complexo para ele amar o próximo. Não? Estamos sem tempo para nós, quem dirá para os outros, mas também não é precisamente necessário ficar atravessando velhinhas na rua.
Vivemos andando no escuro, com a corda bamba, dançando pagode, samba, e equilibrando uma pilha de contas, num dia-dia corrido e sofrido. Pergunto-me quando vamos parar com essa velocidade, puxar de vez o freio de mão, andar um pouco na contramão, ligar um pouco o som, deixar o sol entrar, o suor descer pro frio dentro derreter, a gente percebe isso pelas famílias que não se reúnem mais, apenas em datas extra-especiais, os amigos e namoradas se encontrando pela internet, em papos vazios, sem calor, uma presença ausente, o mundo inteiro conectado e por isso tão separado, uma mentira sutil e sincera, uma realidade intangível, o carinho das mãos amigas se acabaram, a vizinhança, as gargalhadas de crianças brincando na rua se esgotaram, fechados em condomínios e apartamentos separados.
Talvez no próximo século a gente termine de transformar essa sociedade, mas enquanto o futuro não chega, nós ficamos com os pés no passado, com certo orgulho tradicionalista, que reprime o agora, atravancando a novas ideologias, mesmo nesse infinito universo de tecnologias que vem surgindo, as cabeças congeladas no passado parecem descongelar aos poucos, mas a grande chance está na juventude.
Uma vez um senhor carrancudo me disse: “- A juventude de agora é tão ignorante que se esquece do passado, e se joga no futuro”, eu então lhe perguntei, desviando o assunto se ainda tinha ouvido falar da tecnologia “Blue Ray”, o senhor me indagou: “- Urubu Rei?”, neste momento não saiu da minha cabeça que, muitos respeitáveis senhores ainda se afogam no passado, pra não respirar o futuro. (Gustavo Pitwak)