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Os chocolates acabaram

Posted by Gustavo Pitwak on 09:05

Desde que me mudei para o interior de São Paulo, não me conformo com o clima, quase todos os dias do ano são quentes, e só eu sei o quanto me irritei com o calor, o ar abafado, a vermelhidão que o sol deixava e o desgaste físico, o calor exausta muito, ainda mais quando não se tem uma praia por perto, pra deixar os pés enterrados na areia, a maré que vai subindo, enquanto à noite vai caindo, com a lua deitada nas ondas, imaginando me lembra o deslumbre litorâneo nordestino.
Deixando de lado a praia, venho aqui a falar que de uns tempos pra cá, os dias foram diferentes, o tédio em cada canto da casa me distraindo de qualquer inquietude, o suor escorrendo, deslizando como os ponteiros do relógio, roubando-me mais alguns segundos do dia, mas não me importo, sabe, ás vezes é preciso um pouco de melancolia e solidão para se dar valor as coisas boas da vida, como a alegria e onipresença dos amigos.
Sempre me pergunto, se realmente estou descartando as cartas certas? Será que tudo é um jogo? Ou será que já está tudo traçado, após ter nascido é só “deixe a vida me levar”, este que na qual não é o meu dilema de vida, com certeza, e que me desculpe o poético “Zeca”. Ultimamente não ouço mais o som romântico que antes tocava, um momentâneo “stand by me”, nem as flores, os chocolates, ou beijo mordiscado, não tenho mais a quem dedicar essas caricias, por enquanto a certeza é que a cama ainda está sozinha, sem mais espaço pra tanto vazio, se assim se pode dizer. Questiono-me pensando alto: “Em qual rumo estamos indo, se ninguém é de ninguém?”, a relação no século XXI está muito mais complexa, de tanto se tentar simplificar. Vai se entender?
Talvez isso seja uma grande lição de moral, como uma vez ouvi dizer, que “só se sente o verdadeiro sabor do doce, quando se provou do amargo”.
Mas daí eu entro numa reversa indagação, e quando se prova bastante do doce (amor), sem dar o devido valor? Será que terá de se provar do amargo em mesma dose? A verdade é que tenho medo, de um dia acordar e descobrir que acabamos nos frustrando do amor, e que procuremos em outro sentimento a nossa satisfação, já que “sexualizamos” até os objetos inanimados, ás mais intangíveis opções. As pessoas perderam o ponto de referência entre a vida e realizações pessoais, o correto atualmente é desejar, ser, alçar alto, custe o que custar, alcançar o mais longe, mesmo que custem inimizades, o que não é difícil hoje, já que amizade, honra, e honestidade perdeu o valor límpido de tempos atrás.
O amor ficou de lado? Ou ele nos deixou de lado? Perdemos o calor que tínhamos com ele, nosso envolvimento com ele caiu na rotina, e se dissolveu em meio a tanta preocupação com valores capitais, que equiparamos cotidianamente aos indivíduos que nos rodeiam o meio social.
Em contra ponto, mesmo com tanta preocupação com o bem estar, imagino que estamos fadados a pelejar atrás de algo inalcançável, ficando inertes ou sujeitando-nos a mediocridade de nossas vidinhas modernas, a mesma que achamos nos intelectualizarmos, nadando no “mar morto” do superficialismo do século XXI, meio como seguindo a ideologia “zumbis”, vagando e vagando pelo sangue do outro. A gente não tem mais aonde procurarmos por nós mesmo, não á mais “homem” dentro dos homens, nem “mulheres” dentro de mulheres, a não ser no sentido malvado e sexual.
Ao menos nos sonhos posso imaginar que no futuro ainda haverá um suor que possa valer a pena, com os chocolates, as flores, possivelmente na praia, de um lado um amor com amor, que dure ao menos até o Sol se pôr, simples como essa rima.
(Gustavo Pitwak)